Thursday, December 26, 2024
Friday, February 12, 2016
[...]
Arthur Matsuo
[Secção outros tons] São pássaros a voar, fugidios de chuva e de vento. Imbatíveis, quebram gravidade. A janela embacia-se com o vapor de chá de violeta imperial. De nada, aparentemente, por contar, escreve-se o quotidiano. Dando espaço ao silêncio, mais uma página é folheada, quase encerrando o capítulo.
Wednesday, February 10, 2016
Bom tempo
Guy Anderson
O dia convida ao recolhimento. O que tanto se designa por “mau tempo”, pode ser bom tempo, belo até, para dar início à viagem de nova passagem. O gradiente do cinzento não ofusca a cor… pode relembrar a serenidade de memórias, clarificadoras do mistério do próprio presente. Há pouco, enquanto rezava, perguntei a Deus: que queres que de mim reduza a cinzas? Só Deus consegue amar-me ao ponto de me ajudar a ser como Ele. Num primeiro momento assusta pensar nisto: ser como Deus. No entanto, toda a revelação aponta a esse saber perder capas, máscaras, camadas que impedem a força da luz interna brotar como ramos que nos fazem encontrar em comunidade, de respeito e misericórdia, uns com os outros. Este caminho de cinzas é caminho de liberdade. Não renegando o passado, aceita-se sem que massacre, para queimar o que impede de viver… e veremos como a própria cinza torna a terra, banhada com a água de inverno, ainda mais fértil.
Tuesday, February 9, 2016
Ainda em Carnaval... ou em flexibilidade.
Cristina Lima
Há pouco, no post anterior, escrevi sobre flexibilidade… e agora acabo de receber esta foto do fim-de-semana passado com alunos. Antes que o dia de Carnaval acabe, recordo que a credibilidade de um padre (pelo menos este que escreve), também é medida pelo humor com que vive. ;)
Flexibilidade
Pai José
Achei piada quando descobri esta fotografia. Comecei a praticar ginástica acrobática com 13 anos. Recordo bem o esforço de treinar a espargata para ir a competição. Ainda não estava no ponto, mas, como se nota, já ia avançado. Ganhar flexibilidade exige trabalho. Não só flexibilidade de corpo físico, mas também de espiritual, psicológico e social. Uma das técnicas é começar pelo amor-próprio. Gostar-se realmente de quem se é, é mais difícil do que parece. Implica conhecer, tanto do que é bonito e agradável, como do lado sombrio que incomoda. Depois, começar a estar atento ao outro, na sua diferença, sem fazer o julgamento imediato, rotulando-o seja do que for. Algo igualmente fundamental, perceber onde é que os estereótipos vão entrando e obrigam a que “tenha de ser assim porque sempre foi” ou “há que mudar porque sim”. Ganhar flexibilidade, poderá significar sair da rigidez para a compreensão. No fundo, deixar que o coração de pedra se transforme em carne.
Monday, February 8, 2016
Trabalho de corpo
Naing Thu Soe
Cheguei há pouco de uns dias com os alunos do 12.º ano da ARTAVE (a escola profissional de música do complexo escolar onde trabalho). Esta manhã propus-lhes exercícios de corpo e de dança, onde se incluiria muito de trabalho de confiança e autenticidade, com eles próprios e com toda a turma. Mais uma vez, houve verdade. No princípio, surgiram os risos e os olhares que revelam a sensação de ridículo. No entanto, das muitas vezes que propus este tipo de trabalho de corpo, foi aquela em que senti a imensa entrega, de cada um e do conjunto, de forma mais rápida. Alguém, na partilha final de todo o exercício, usou mesmo a expressão de ter percepcionado momentos de limpidez. Houve momentos de gestos limpos, que levaram a olhares de agradecimento e de perdão entre eles. Isto de explorarmos o trabalho de corpo, em territórios desconhecidos, abre muito de nós. Apercebo-me do muito medo que há com o que o corpo pode potencializar e dar a conhecer de quem se é. São séculos de centralizar o conhecimento na cabeça, na “fria” razão, onde se encaminha para a formatação do próprio humano. Quando se habita o movimento, há muita novidade… junto com o despertar do que está abafado por tantos medos, inseguranças, vergonhas.
Wednesday, February 3, 2016
Agradecer ser padre
Hideki Mizuta
Há dias que marcam de forma especial simplesmente por ser padre. Hoje foi mais um. Só que não é “mais um” em sentido de desvalorizar ou relativizar, mas de agradecer a vocação de forma especial. Apenas fiz o esperado. No entanto, é sempre bom ver, no meio de tanto sofrimento, o brilho de olhar e ajudar a devolver cor à vida.
Monday, February 1, 2016
Dons, capacidades, talentos, virtudes
Prasad Perakam
Tenho-me apercebido da grande dificuldade que muitas pessoas têm para aceitar os seus dons, capacidades, talentos, virtudes. Talvez por surgir o medo ou a vergonha do julgamento com frases do tipo “convencido(a)!”, “quem acha que se julga?”, “olha, este(a) a se armar”, “olha a imensa modéstia que por aqui anda” dito com ironia, acaba por dar-se a dificuldade no reconhecimento dos dons. Ninguém é bom em tudo. Mas também não há ninguém que não tenha dons. Gasta-se tanta energia tanto quando se rebaixa alguém, como quando não se é devidamente valorizado. Por isso, parece-me que devia usar-se bem essa energia, por um lado, a (re)conhecer e a agradecer os dons que se têm, por outro, a (re)conhecer e a agradecer os dons que os outros têm, pondo-os todos a render, sobretudo no caminho da humanização.
Sunday, January 31, 2016
Encontros
Quando esta DEF e este padre se juntam, há gargalhada na certa. Também conversas sérias, de Deus e de humanidade, com sonhos à mistura. Tudo na casa de bonecas, que prova que há limites a serem superados independentemente do tamanho (ok, a cadeira de rodas dá uma ajuda! ;)). E viste que conseguiste dar uma cabeçada num tecto?!? Afinal, os colos elevam… ;) Mafalda, para quando o livro?!? Estamos à espera.
Thursday, January 28, 2016
Sobre o tema "nudez"...
Imagem de 1480-1490, atribuída ao atelier de Ivo Strigel
A propósito da nudez que tanto se fala agora, e que infelizmente teve de ser tapada para não ferir susceptibilidades em vista da deusa economia encapotada de questões culturais, lembrei-me da foto que tirei a esta imagem do Menino Jesus no Museu de Cluny, dedicado à Idade Média, em Paris. A divindade em que acredito nada tem a esconder. Pelo contrário, revelou-se plenamente, não descurando nada da humanidade. E mostrou-nos que ser é mais importante que ter.
Wednesday, January 27, 2016
"Sabes que mais? Morre!"
Candy Caldwell
[Secção pensamentos soltos] Passava num dos corredores de uma das escolas e ouço no meio do reboliço: “Olha, sabes que mais? Mata-te!”, dito de forma banal, até em jeito de aparente brincadeira. Pode-se incluir em expressões que se ouve e lê com muita frequência (também em muitos comentários on-line): “Mata-te”, “morre”, “ se não conseguires isto, mato-te”, “nem devias ter nascido” etc. Tenho pena que não se meça, ou se aprenda a medir bem a força das palavras. Quando se começa a roubar legalmente (e isto de roubo legal está também a ser muito comum) gente que tudo perde, quase a vida, para fugir da morte, “algo vai mal no reino da Dinamarca”. No fundo, é outro modo de dizer “morre, desaparece, não te quero na minha vista confortável e provocas-me medo porque não és dos meus”. Hoje é dia de recordar muitos que morreram de forma tristemente banal, onde alguém decidiu, de forma legal, tirar-lhes a dignidade da existência, tipo “Olha, sabes que mais? Morre!” por serem judeus, negros, ciganos ou homossexuais. Poderíamos incluir os que foram assassinados, entre outros, pelos khmers vermelhos no Cambodja, por usarem óculos, serem de outra nacionalidade ou religiosos. Há dias que é de dizer, com preocupação e arrepio: mundo estranho, este. Foi com ar de estranheza que olharam para mim quando lhes disse: “e se todos os pedidos se realizassem e ele se matasse mesmo?” Pois, as palavras, junto com as acções, têm força de tirar ou renovar a dignidade. Seria bom que se seguisse sempre a renovação.
Tuesday, January 26, 2016
Ida ao bosque
Momento da meditação em que os convidei a elevar os braços e a espreguiçar.
[Aula com alunos de 5.º ano] Tenho aula com eles no primeiro tempo da manhã. Cheguei, levantaram-se para me receber como de costume, junto com os bons dias. Sentaram-se e fiz vista geral de sala. “Sr. H. dormiu bem esta noite? Está com ar de sono.” “Sim, estou!” Comecei a reparar e eram uns quantos… incluindo-me no grupo, claro. Ai, para mim as manhãs são sempre dramáticas. ;) Ora, olhei pela janela e dá-se-me uma volta de aula. “Meninos e meninas, todos de pé.” Ar de espanto. “Que vamos fazer, pro’ssor?” “Nada de barulho no corredor!” A meio do caminho disse-lhes que íamos para o bosque. Impagável o ar de alegria que sentiram. Alguém me disse: “Ai, este é o dia mais feliz da minha vida!!” Eu: “Que exagero!” “Pronto, desde que começou a escola!” Chegando lá, fizemos a oração da manhã e a meditação… a música era dos pássaros, das folhas caídas no chão e da brisa a passar pelas árvores. Depois falámos da criação, do respeito pela natureza e de como eles já podem fazer muito para tornar o mundo melhor. O bom mesmo? Ver a alegria deles a descobrir a beleza do bosque.
Monday, January 25, 2016
Conversão/conversões
Takashi Zenihiro
Entre as muitas e pequenas conversões diárias quase imperceptíveis, há as grandes, onde se deram viragens no modo como me vejo em relação com os outros e com Deus. Posso dizer que todas têm que ver com encontros. Não me tornei ou torno um novo Paulo, mais um Paulo renovado. Há medos e limites que se mantêm. O que muda? Dons que se avivam e, sobretudo, o aumento da consciência de que não estou sozinho, perdendo a vergonha tanto da fragilidade, como de afirmar e pôr a render esses mesmos dons. Depois, as forças do respeito e da compreensão dão-me impulso à vocação.
Sunday, January 24, 2016
Olhar
[Secção outros tons] Pode o olhar escutar? Toca liberdade, ou, simplesmente, o sabor a-mar. E nenhum membro poderá dizer a outro: “tu não fazes falta”.
Saturday, January 23, 2016
Caminho de (re)descoberta
Sérgio Lemos
- P. Paulo, parece que toda a gente me obriga a ser feliz. Já sei que há quem possa estar pior do que eu, que há quem sofra mais do que eu, que não teria com que me queixar, essas coisas todas que me põem ainda pior. Eu acredito em Deus, rezo, mas não saio disto.
Do rosto emanava tristeza profunda, claramente em depressão. Como não sou terapeuta, tenho muito cuidado no que digo. Pergunto sempre se está a ter algum acompanhamento especializado. O problema acontece quando são pessoas que não têm meios para este tipo de acompanhamento e lá se percebe o padre como o “psicólogo barato”.
- E acredita em si?
- Como assim?
- Acredita que tem de fazer o caminho, mesmo que duro, de descoberta do seu lado mais sombrio e amá-lo?
- Não sou capaz. Isso é impossível!
- E se começar por dizer “é difícil”, antes de dizer “é impossível”? Cada vez somos mais marcados pela busca da perfeição em muitas situações: físicas, emocionais, profissionais, religiosas. Temos de ser imaculados. Quando, afinal, temos muitas coisas que não se gosta. Claro, tocar aí é como se estivéssemos a confirmar que “não prestamos”. Não é fácil, claro que não, mas esse caminho tem de ser feito, para amar tudo em nós, mesmo a sombra, a tristeza, o sem-sentido. É um caminho pessoal, mas tem de ser acompanhado por alguém que vai escutar sem julgar, ao mesmo tempo que vai ajudando a despertar para um novo amanhecer.
- Isso demora muito?
- Não é uma questão de tempo, mas de vontade. E como me falou de Deus, dizer-lhe que Deus é o primeiro a acompanhar nesta viagem.
Emocionou-se.
- Eu sou alguém, não sou?
- Permita-me que lhe toque?
- Sim.
Levantei-me e coloquei a mão no ombro.
- Vê, não consigo atravessar. Não é transparente, há solidez natural. Posso sugerir outra coisa?
- Sim.
- Vou colocar uma música e peço-lhe que imagine o nascer do sol. Ao mesmo tempo expanda os braços e o tronco. E fique assim, um pouco, simplesmente a respirar.
Deixei passar uns minutos e via as lágrimas a cair. O rosto ia ficando menos tenso… o longo caminho começava a ser feito.
Friday, January 22, 2016
Preparar casamentos II
Visarut Teerawatvichaikul
Ainda a propósito de casamentos, tendo em conta o post de há dias. Outra coisa que gosto de dizer aos noivos que se preparam para casar: não deixem de ser casal. Explico-me: muitas vezes, ou grande parte das vezes, quando chega a maternidade e a paternidade, parece que se dá o esquecimento que são casal. Caminho errado! Espero que haja criatividade. Tirar de vez em quando um dia ou um fim-de-semana a dois é bom e necessário. Sim, há a responsabilidade de se ser mãe e pai, mas parece-me que para sê-lo ainda com mais liberdade, força e emoção, há que ir ao amor primeiro… entre os dois. Deixem lá culpabilizações de lado e mimem-se e amem-se e sejam criativos. ;)
Wednesday, January 20, 2016
Os alunos n'A Praça
Tiago Couto
Encontrar a simplicidade nas palavras e nos gestos. Foi o que aconteceu hoje enquanto conversávamos com o Sr. Agostinho e a D. Gabriela, sua esposa, antes de entrarmos em directo. Com a doença, o desgaste e cansaço que sofrem, percebia-se neles muito agradecimento pela vida. A Cátia, a Inês, a Sara, o João e o Pedro, criaram laços com esta família. Mais, no que é possível, pode ser feito e é isso que vai acontecer. Aqui fica a entrevista aos alunos n’A Praça: http://www.rtp.pt/play/p1983/e221559/a-praca/479188
Tuesday, January 19, 2016
Sobre ELA
Amanhã, 4.ª, irei acompanhar um grupo de 5 alunos do Colégio das Caldinhas (da OFICINA e do INA) à Praça da Alegria [RTP 1]. Estes alunos realizaram um vídeo sobre a força, a vida e a esperança do Sr. Agostinho e da sua mulher. Ele sofre de ELA. Eles, alunos, ganharam uma nova perspectiva sobre a vida. A conversa andará à volta disto. E assim continuamos no caminho da educação, aliando o conhecimento à sabedoria da vida.
Monday, January 18, 2016
Coisas de corpo
Aizuddin Saad
Esta manhã troquei o frasco de café pelo de cevada. Peguei sem ver, estava a abrir e senti que a tampa era estranha. Olhei: frasco errado. Ok, coisa de pouca relevância para um post, mas depois fiquei a pensar nisso tendo em conta o meu gosto pelo tema “corpo”. Foi apenas pelo tacto que percepcionei a tampa estranha. A meu ver, apesar de já se tomar mais consciência, ainda assim liga-se pouco à importância do corpo como identidade. A memória corporal é muito forte e activa recordações de gestos, de movimentos, de encontros, de histórias até. Sentir o corpo, sentir de onde vem dor ou leveza, sentir a posição corporal, também é perceber quem se é e como se está consigo mesmo. No acompanhamento torna-se muito importante escutar a “conversa do corpo”, por vezes, mais do que a “fala da boca”. Daí que a educação a partir do corpo deveria ser mais explorada. O desporto, a dança, o teatro dão muitas ferramentas de conhecimento próprio… e bem orientadas, de libertação e de cura.
Sunday, January 17, 2016
Preparar casamentos
Dimitar Karanikolov
Quando tenho a primeira conversa com casais que me pedem para abençoar o casamento, digo-lhes para prepararem bem esse dia, de modo a que, para além da festa ou dos convidados, seja o dia de um novo começo a dois. Um novo começo que implicará muito de transformação pessoal, também enquanto casal, onde se complementarão um ao outro de forma especial ao longo da vida. Uma vez, um casal veio ter comigo e:
- Sr. padre, vamos casar e gostaríamos que nos ajudasse. Rezamos muito a Nª. Sra., a Jesus, vamos à Missa, etc. etc. [O tom de voz era: “vamos-falar-disto-que-é-o-que-ele-há-de-gostar.”]
- Que bom que têm uma vida de oração. Já vivem juntos?
- Ah, não, sr. padre, Deus nos livre?
- Como? Então, querem casar e estão a dizer ‘Deus nos livre’?
- Sr. padre é uma expressão, mas não bate certo, não.
- Já que ainda não vivem juntos, estão preparados para aguentar os cheiros um do outro? [O ar era “onde-é-que-nos-viemos-meter?”] Sim, a pergunta é estranha, mas fazer um pedido de casamento à Igreja não passa só pelo lado espiritual, há que tomar consciência de que o passo implica fazer conhecimento um do outro, onde a dimensão de corpo também tem de ser muito presente. Claro que se espera que os momentos agradáveis sejam muitos, mas quando os desagradáveis chegarem, não se comecem a descartar. Não há fórmulas acabadas, mas há caminho a ser feito. Como em qualquer relação, é estar disposto à transformação, que tem de ser sempre de vida e de respeito um pelo outro.
[Tivemos alguns encontros, com boas conversas, em que testemunhei a muita verdade um com o outro… espero que assim continue.]
- Que bom que têm uma vida de oração. Já vivem juntos?
- Ah, não, sr. padre, Deus nos livre?
- Como? Então, querem casar e estão a dizer ‘Deus nos livre’?
- Sr. padre é uma expressão, mas não bate certo, não.
- Já que ainda não vivem juntos, estão preparados para aguentar os cheiros um do outro? [O ar era “onde-é-que-nos-viemos-meter?”] Sim, a pergunta é estranha, mas fazer um pedido de casamento à Igreja não passa só pelo lado espiritual, há que tomar consciência de que o passo implica fazer conhecimento um do outro, onde a dimensão de corpo também tem de ser muito presente. Claro que se espera que os momentos agradáveis sejam muitos, mas quando os desagradáveis chegarem, não se comecem a descartar. Não há fórmulas acabadas, mas há caminho a ser feito. Como em qualquer relação, é estar disposto à transformação, que tem de ser sempre de vida e de respeito um pelo outro.
[Tivemos alguns encontros, com boas conversas, em que testemunhei a muita verdade um com o outro… espero que assim continue.]
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