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Friday, December 4, 2015

Sobre reacções...




Dmitry Butuzov

[Secção desabafos] Nos últimos tempos tem-me incomodado e dado que pensar as reacções de muitos cristãos católicos a temas sensíveis, como o divórcio, situação de recasamento, homossexualidade, já que em nada tocam a misericórdia de quem se diz seguidor de Jesus Cristo. Tenho lido, ouvido e visto reacções de agressividade que mexem com a vida de muitas pessoas: que menos esperam, que podem estar sentadas no lugar ao lado da Missa, ser do mesmo grupo de reflexão sobre a fé ou bíblico. Quando os temas são sensíveis, há que tratá-los com sensibilidade e respeito pela pessoa, sem pôr tudo no mesmo saco. É impressionante as barbaridades que se dizem acompanhadas com o artifício retórico de “e eu até conheço ou tenho amigos que são divorciados, recasados, gays, etc.” Se se tem esses amigos e se o são realmente, cuidado com o que se escreve ou diz, pois com amigos assim… já se sabe. Custa-me ver que em nome da fé, perdão, duma pseudo-moral-que-se-diz-vir-da-fé, pode-se provocar tanto sofrimento desnecessário. Por vezes, apetece perguntar se a reacção visceral que se tem aos temas não será alguma situação mal resolvida, consigo ou com outros próximos, que não quer aceitar. Se assim é, não vai de rezas, mas de se fazer caminho de encontro consigo próprio… e nisso, Cristo foi muito claro (e duro, sobretudo com os fariseus e doutores da Lei). De vez em quando lá me recordo quem tem precedência na chegada ao Reino dos Céus.

Sunday, August 30, 2015

Cultura de acolhimento




Robert Atanasovski/AFP


Somos concebidos em cultura. Essa cultura que atravessa a humanidade condiciona o modo de pensar e viver. É difícil, para não dizer impossível, alcançar a pura neutralidade. Questões de crenças atravessam todos os âmbitos. Ser humano é ser crente. E não vale a pena fugir disto. Os tipos de crenças é que podem variar: do desportivo ao religioso, sem esquecer o político, elas pairam na vida de cada um. Somos cultura, somos crença… e somos relação. Nessa relação deveríamos perceber a riqueza da humanidade na sua diversidade. Chegam-nos humanos, como cada um de nós, por mar, atravessando arames farpados, de culturas diferentes. Apenas buscam viver… nem é viver melhor, apenas viver. Ficar-se neutro é impossível, já não o é optar entre o medo ou a confiança na altura de falar na ajuda que se pode dar. Continuo a acreditar que, para além das crenças todas, possa crescer a de um mundo melhor. Nestes dias, de todo que passa por acolher, e não expulsar, sobretudo quem quer apenas viver.

Thursday, August 27, 2015

Aprumar valores




Yap Kh


[Secção desabafos] Estar “fora do mundo” durante alguns dias sabe bem. É como se me fechasse numa redoma de outros ventos e marés. No entanto, sabe-me bem apenas por uns dias, pois muito mais tempo entro no perigo de desligar-me da realidade circundante. E é essa realidade que também me ajuda a pensar. É certo que temos vários níveis: o banal do quotidiano, o extraordinário, os acontecimentos de vida e o que se passa no mundo. Dá-se mais interesse conforme os gostos. Volto e leio sobre a gravidade da situação humanitária de refugiados, sobre a continuação do massacre perpetuado pelo Estado Islâmico, sobre as manifestações de extrema-direita na Alemanha contra a entrada de refugiados no país e sobre pessoas a continuar a morrer no Mediterrâneo por buscar a vida. Gosto de animação, não sou pessimista, sigo numa linha de esperança, mas que dói, dói. O que mais custa é saber que há quem tenha interesses com tudo isto, banalizanado a vida humana. Diante destes cenários, fico a pensar na hierarquia de valores que tenho de aprumar… afinal isto de amar o próximo como a si mesmo tem muito mais que se lhe diga.

Monday, April 20, 2015

Nenhum ser humano é ilegal




Associated Press


Ontem à noite pensei muito na morte. Lembrei-me de histórias contadas em primeira mão quando visitava as pessoas detidas no centro de internamento de estrangeiros (CIE) em Madrid. Visitei o Justin, do Senegal. Era pescador e arriscou uma vida melhor, deixando a família. Fez os devidos pagamentos “àqueles” que prometem a tal vida melhor. Todos os do barco foram detidos ao atravessar o Mediterrâneo e o Justin foi para prisão durante 3 anos por ser considerado o capitão por ir a conduzir. Ao fim desse tempo, ao sair da prisão a polícia já o esperava para levá-lo para o CIE. Aí estava, a falar um muito rudimentar espanhol, sem saber inglês ou francês. Tentávamos comunicar por gestos. Dificilmente um africano chora, em público muito menos. Às tantas, o sofrimento daquele homem transbordou em lágrimas que por força queria controlar e não conseguia. Além do sofrimento, juntou-se a vergonha de estar a chorar diante de um quase desconhecido. Regressar ao Senegal significava morrer, com o pensamento de que a família também poderia morrer às mãos “daqueles” que prometeram a tal melhor vida. Estes dias mais 700 pessoas morreram na busca de uma vida melhor, enganadas por tanta gente. Enganadas pelo idealismo do “sonho europeu”, por aqueles a quem pagaram por lhes terem prometido o “sonho europeu”, por políticas que elevam a economia à realidade primordial, alimentando guerras e terrorismo, por este lado de hipocrisia social, onde as vidas se reduzem à abstracção de números, diluindo-se no Mar os nomes e os rostos, não só dos que partiram, mas dos que ficam, muitos sem saber o que aconteceu a quem partiu. A quem governa, recordem que ninguém é imortal e que de nada servirá nem o poder, nem o dinheiro. Seria bom que ajudassem a eternizar que nenhum ser humano é ilegal, impedindo, por um lado, a escravatura social, política, religiosa e económica, por outro, a morte desumana enquanto busca de vida.

Tuesday, March 17, 2015

Entre "terra" e mal que se infiltra




Carlos García Pozo/AP - Javier Espinosa com o filho, à chegada a Madrid


Estou a escrever sobre a importância do corpo na relação com Deus. Foco em particular S. Ireneu de Lyon e Tertuliano (ambos do séc. II): atacaram fortemente as posições gnósticas que separavam o corpo da alma, sendo, claro está, o corpo algo desprezível. Há passagens dos seus textos de grande beleza, mostrando como participamos todos da mesma “terra”, nesse sentido metafórico da criação. Paralelamente, não por estudo, mas por actualização dos acontecimentos do mundo, também vou lendo sobre o terror que continua a acontecer pelo auto-denominado Estado Islâmico. Tenho estado a ler a reportagem sobre o jornalista espanhol Javier Espinosa que esteve preso às mãos dos terroristas durante 200 dias. É assustador, monstruoso, doentio, perverso, o que fazem. Mas que tem uma coisa que ver com a outra? Isto põe-me o pensamento a mil. Somos feitos da mesma matéria biológica destes que matam segundo as suas lógicas [irracionais, diga-se]. Não, a comparação não é rápida, obviamente que há distinções, precisamente pela complexidade humana nas dimensões biológica, psicológica, social/cultural, espiritual. Não é por acaso que se desenvolve a ética humana, com o seu cariz universal. Dizer que o mal não está na terra da qual todos participamos, que para mim é desejada e amada por Deus. Na nossa complexidade de ser, o mal, como ausência de bem, infiltra-se por muitos esquemas, sobretudo na ânsia de poder e de inveja mal resolvida, algumas vezes degenerando em frustrações, onde em extremos leva novamente ao sofrimento e à morte de muitos, nesse anular de toda a possibilidade de diversidade. Como já tenho escrito é fácil ver o mal presente nas acções dos outros (e sim, claro, há que ver e denunciar), o que custa mesmo é perceber que também eu posso estar sujeito a esse mal. Daí a necessidade de vigilância: na formação [diferente de formatação] de consciência que me leve ao respeito pela diversidade humanizante; no reconhecimento que não tenho a última palavra; na fé que também liberta esquemas de opressão ora pessoais, ora de outros que posso controlar, mostrando-me a responsabilidade dos meus actos. Mas, confesso, no meio disto tudo, parafraseando Martin Luther King, continua-me a fazer confusão não o grito dos terroristas, mas o silêncio dos “bons” ou dos que podem tomar decisões à séria diante das atrocidades, de lá e de cá, que continuam a acontecer.

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